2 de novembro de 2009
Herta Müller
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27 de setembro de 2009
Bukowski
Recordo-me de um amigo dos tempos da pós-graduação, que precisava traduzir um bom trecho de uma tese escrita em holandês. Só que ele não sabia nada dessa língua e não conhecia ninguém que soubesse. Então, conseguiu um dicionário em um sebo e foi traduzindo, intuindo, até chegar em frases que faziam certo sentido. Em uma semana traduziu uma página e meia, duas, no máximo. Mas aí ele já não era a mesma pessoa, era alguém que tinha uma leve noção do que era conhecer uma outra língua e sabia que dali pra frente traduzir seriauma tarefa cada dia mais fácil. Eis uma poesia de Bukowski, de que gosto muito:
the souls of dead animals
after the slaughterhouse
there was a bar around the corner
and I sat in there
and watched the sun go down
through the window,
a window that overlooked a lot
full of tall dry weeds.
I never showered with the boys at the
plant
after work
so I smelled of sweat and
blood.
the smell of sweat lessens after a while
but the blood-smell begins to fulminate
and gain power.
I smoked cigarettes and drank beer
until I felt good enough to
board the bus
with the souls of all those dead
animals riding with
me;
heads would turn slightly
women would rise and move away from
me.
when I got off the bus
I only had a block to walk
and one stairway up to my
room
where I'd turn on my radio and
light a cigarette
and nobody minded me
at all.
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20 de setembro de 2009
Poetas
Estou distante deste blog porque me dedico há vários dias à obra completa de dois poetas: Bukowski e Cummings. O problema é que pouco há a dizer sobre eles e por isso meu silêncio. Pouco resta a dizer porque muito já foi dito. E meu silêncio expressa também a grandiosidade das obras. Frente aos versos, me sinto impotente, inútil. É como ouvir Mozart. O mínimo que devemos fazer é nos calar.
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7 de setembro de 2009
Resenha de Silas Correa Leite
Fragrâncias e Ordenhas Historiais em “As Espirais de Outubro”, Romance de Whisner Fraga
“Mas não se preocupe, meu amigo/
Com os horrores que eu lhe digo/
A vida realmente é diferente/
Ao vivo é muito pior...”
Belchior
Aila, personagem principal narradora-memorialista do romance “As Espirais de Outubro”, ora no passado, ora no presente, ora no futural (o Nobel de Literatura brasileiro), ora um sem tempo ou tempo nenhum, o que dizer dela? Implicações, reinações, florações. Respigando. Paradoxos, ossos e ócios do oficio de ler-ser-escrever-ter-se (tecer-se). Brilhante romance como se fosse escrito a ferro e afago; escrito como uma espátula impressionista a arrancar fios, recalques, tiras, simulações, descaminhos, espirais – da vida-obra-livro: Aila ela mesma no fim do seu íntimo outonal.
Tantos personagens-páginas vão e voltam, estão e soam, dizem, costuram elementos-paisagens e assim compõem a estrutura narrativa do belo romance do Whisner Fraga, já autor de Coreografia dos Danados (Edições Galo Branco 2002), e A Cidade Devolvida (7 Letras, 2005). A intimidade devassada pela velha escritora em um apartamento no bairro do Botafogo, Rio de Janeiro. O nome do bairro já alude a um rasgo de incêndios revisitados pela ótica da narradora-personagem querendo assim alumiar resquícios de vida louca, personagem de si mesma em agonia a esperar um fim, sem ter se dado um fim em si mesmo, preferindo prolongar a agonia de viver no que escreve, mesmo negando isso. Nas reminiscências ficando a sua espécie assim de continuação... Como se ordenhasse as ovelhas das memórias recapituladas em prosa poética, mas com estilo, qualificação, ora desbunde, ora rancor, sempre o que foi (tem sido) naquilo que agora expropria entre erranças associadas, heranças historiais e inventários de si mesma no camarim das horas e honras indispostas. Penumbras.
A melhor obra é quando o próprio autor morre no final? Mortos acompanham a obra de Aila/Whisner. Um cortejo de palavras, tristices, corpos, danações. Fantasmas pontuando parágrafos como se querendo compor lidas adjacentes, a colocarem pingos em dáblios, não em is. O apartamento. A cidade. Tudo ali, vida em viço, o inicio, a composição de, depois o estado decrépito, erros e acertos, fragrâncias e decomposições. O câncer, o Nobel, o diário-romance (reinventando a vida em declínio?), lembrando aqui e ali Clarice Lispector, ora Hilda Hist, ora Lygia Fagundes Telles, mas sempre ele mesmo Whisner com talento e maestria levando a correção do livro e à corrosão de uma vida-personagem enlivrada. O diabo mora nos desfechos? Mergulhos em maldições. A coitada da vez tendo voz-escrita. Não tem como não se encantar com Aila. A mulher carregando a violência, quase incapaz de domá-la, no entanto com trejeitos peculiares costurando-a nas contações, domando, por fim, a ordenha de momentos, fragmentos, destilos, despojos, jorros narrativos da feia e fera se entregando de mão beijada. Tem um toque poético e um jeito que cutuca um enfoque meio Nelson Rodrigues em certas paragens-interpretações do sentimento ledor, da existência-monstro-poderoso com brincadeiras e perversidades. Ai de ti Botafogo!
A espera pela morte, da morte. Familiares reduzidos a momentos e sentenças. Amigos catados de escombros, e ainda assim dando alguns suportes afetivos. Personagens-relações transfigurados, compondo o cenário de amor, dor e de horror com reticências. Será o impossível? O ar abafadiço estaciona na memória requentada. Os vazios da rotina. O livro-filho-continuação. Presenças e ausências ressentidas. Janelas da alma no quarador de tantas implicações, alguma de fundo falso. Lugares fechados, sombrios. Pés enxofrados das palavras-libertações. O mesmo lugar, lugar nenhum, qualquer lugar em si mesmo.
Você, na correria estúpida da vida in Sampa também embrutecida, quer ler o livro do Whisner Fraga de supetão, não consegue. É corrompido a ler como um desgaste de ferrugens da alma da Aila, é levado a parar, truncar, ir e voltar, rever, como se arrancasse suas próprias espirais e tivesse que adentrar àquele mundo criado lento, devagar, aos poucos, na prosa poética que seduz, cativa, aponta dedos em faces que ora chegam, ora saem, entrecortando parágrafos como se tudo fosse uma balburdia literal de acasos, ocasos e pertencimentos querendo ser avaliados, feito desespelhos. Memórias sangram palavras. Não é fácil procurar culpados, pior, achá-los. Não se podendo parir um filho, poder parir um livro, não deixando um legado de horror-filho mas um legado de reconciliação-livro. Escrever continua sendo mais fácil do quem existir.
O pai, a mãe, Augusto, Catarina, Karina, Adriano, Fabrícia, todos (presenças arrebanhadas), a cara e a corrosão da autora-Aila em parecenças. Iguais diferentes? Cada um com sua cruz-crusoé, ilha-alheamento. Nós. Suicídio, indiferença, a faca da linguagem cegando, instantes-trevas. Vaidades antigas, corpo em desalinho, embriagações em memórias talvez inventadas. O ser-não-ser? Clandestinos amores, ecos, zelos, não há lógica na mortevida, no destino, apenas capitulações, vestígios de ausências, exercícios de perdas. A morte sendo preparada em livro. A freira, o homossexual, a vida boêmia, o Rio de Janeiro continua límpido. Entre sombras amealhando curtumes. O diário-monólogo, o último ato antes de. Qualquer coisa. Espirais. Maldições e coitados tendo voz. Por eles, por Aila mesmo, em recomposições a espera do final que certamente virá. Melancolia. Sentimento de esterilidade frente ao que passou, se passou (se passou?), foi, está, virá, é cruz-destino. A campainha. O telefone. A vida-fera e o recolhimento antes do último suspiro. Veias de comunicações in-terrompidas...
“...a cidade decadente, cinza, com suas baías comprometidas, fétidas, os rios acuados no meio de uma civilização agressiva, o mal que fizemos escancara-se por todos os lados” (Pg 36). Os poros da Aila ela mesma essa cidade que narra. Não pode sair de si, mas pode expandir-se no que corajosa destila, escreve, nomeia, delata, conta, romanceia na metalingüística de escrever sobre o que descreve. O desmanche de coisas que não quer que migrem para o vazio. Escrever é ficar de alguma maneira entre rascunhos e escritas-momentos?.
Carcaças agônicas preenchendo vazios. Não ser esperada e não esperar. Muito triste. Escreve para se ter consigo mesma. Ah o self.
“A morte se aproxima e polvilha sobre a minha cabeça todas as faltas arrebanhadas, exige um balanço final ou um prelúdio para o encontro fatal, quando me cobrarão erros” (Pg 52). A longevidade desastrosa, as situações obsessivas, conflitos, filtros de. Um romance sobre a escrita dele. Memórias vasculhadas. Rascunhos e originais. A preparação para o desfecho bendito/maldito. Os loucos são especiais pra Deus? Há um Deus? Viver é a qualquer custo? Sobreviver tem um preço, dói desatinadamente. E re-eescrever o subViver, feito mesmo assim um escreViver? Prazer Prozac de viver? A consciência do Zero.
“Essa palavra tão banalizada, nada pode acrescentar à história que não seja dúvida” (PG 108). Nomeações que seriam (foram) imprudentes. Pondo o dedo com indisfarçável rancor (negado) em feridas revisitadas. Consciência pesada e vaidade leve. O querer não querendo. O desdizer. O negar afirmando. Contundências. O desgosto de lembrar, pior, ter que lembrar para auditar (auditar?) o que foi real e o que deveria ter sido, poderia ter sido, só o é no que nomina sob disfarces e a expectativa do fim, no camarim da vida se extinguindo...
“Como explicar ao filho o mecanismo do patinete? A escolha do galho da goiabeira mais propício à construção do estilingue(...)” (Pg 122). O futuro na morte resgatando a obra que ficou... O filho que não teve (drumondeando) e fez-se livro?
Um Dia, pré-final: romance misturando descrições e evocações, imaginário e aventuroso, contradições, o alterego, licenças poéticas, tudo tirado do mesmo final. Feliz ou infeliz? Ler pra saber. Isso fica com a sensibilidade atiçada do leitor no envolvimento, ele também um reinventor do que lê, pelo que pensa, sente, aquilata, do que tem de bagagem e gosto por leituras de peso. O romance As Espirais de Outubro é sim, um clássico. Um esgotamento de sensibilidade depois das páginas-lágrimas, vidas-personagens, verdadeiros espirais do talento e da sensibilidade do Whisner Fraga, num trabalho também de edição de belíssima qualidade sob a Coordenação Editorial do Valentim Facioli. Leia e sofra. Leia e viva. Leia e grude. Leia e curta. Leia e sinta por você mesmo. Leia e deguste o final do romance que na verdade não se enquadra assim a priori em estilo nenhum, é um trabalho literário mágico falando das incongruências da vida levada a reboque. Dor e agonia. Criação e criatura. Ah que bom que, assim como o passado tem asas, o escritor tem uma linguagem edificante, toda própria. O fazer falando do fazer. Todo bom escritor é isso: esperar que o leitor de alguma forma e por um seu motivo também morra no final. Saí mais leve dessa leitura-vida-e-morte. Em algum lugar do passado, em algum lugar do presente, aqui no livro-lugar do futuro. Ah as espirais do tempo-rei...
Silas Correa Leite – Escritor, Jornalista Comunitário, Teórico da Educação, Conselheiro em Direitos Humanos, pós-graduado em Arte e Literatura na Comunicação (ECA/USP) - E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue: www.portas-lapsos.zip.net Autor de “Campo de Trigo Com Corvos”, Contos, Editora Design, finalista do Prêmio Telecom, Portugal, à venda no site www.livrariacultura.com.br
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29 de agosto de 2009
Thomas Wolfe
Primeiro e mais importante: não confundir Thomas Wolfe (1900 - 1938) com Tom Wolf (1931 - ). Este último um jornalista americano que escreveu o best seller "A fogueira das vaidades" (The bonfire of the vanities) e que adotou o pseudônimo em homenagem a um dos maiores escritores da literatura de língua inglesa. Sobre Thomas Wolfe escreveu o Chicago Daily Tribune: "Reading the work of this genius is like listening to Wagner or watching the aurora borealis. It is an experience beside which the mill run of most fiction seems trivial and insignificant." Não é exagero. Seus contos são obras-primas da concisão e da elegância.
Primeiro eu quero falar sobre um conto de Thomas Wolfe: The lost boy. Traduzido no Brasil como "O menino perdido", por Marilene Felinto, narra a história de Grover, um garoto inteligente que é enganado por um padeiro sovina. Permeando o argumento aparentemente simples, há uma sórdida e triste história de racismo. Este conto é narrado pelo Grover e o que é apresentado ao leitor é seu ponto de vista. Depois temos as opiniões da mãe, do irmão e da irmã de Grover a seu respeito e assim se constrói uma das mais belas histórias que já tive a oportunidade de ler.
No conto "Arnold Pentland" (Parente de sangue na tradução de Felinto, percebemos a arte de Wolfe ao descrever o fracassado Arnold, que decide mudar de nome e de destino para se vingar da família que não soube educá-lo. Deste conto destaco o trecho:
"Arnold Pentland was a man of thirty-six. He could have been rather smal of limb and figure had it not beem for his great soft shapeless fatness - a fatness pale and grimy that suggested animal surfeits of unwholesome food. He had lank, greasy hair of black, carelessly parted in the middle, his face, like all the rest of him, was pale and soft, the features blurred by fatness and further disfigured by a greasy smudge of beard. And from this fat, pale face his eyes, brown and weak, looked out on the world with a hysterical shyness of retreat, his mouth trembled uncertainly with a movement that seemed always on the verge of laughter and hysteria, and his voice gagged, worked, stuttered incoherently, or wrenched out desperate, shocking phrases with an effort that was almost as painful as the speech of a paralytic."
A tradução de Felinto:
"Arnold Pentland era um homem de trinta e seis anos. Seria um tanto pequeno de membros e compleição, não fosse por sua enorme obesidade amorfa - uma gordura pálida e encardida, que sugeria um empanturrar-se animalesco de comida insalubre. Tinha cabelo preto, escorrido e seboso, repartido no meio com desleixo; o rosto, como tudo nele, era pálido e mole, os traços encobertos pela gordura e ainda desfigurados por um borrão de barba. E sobre esse rosto pálido e obeso, seus olhos castanhos e doentios olhavam o mundo, refugiados numa timidez histérica; sua boca tremia insegura, num movimento que parecia sempre à beira da risada ou da histeria; e sua voz engasgava, debatia-se, gaguejava incoerente, ou soltava frases insensatas e chocantes, num esforço quase tão doloroso quanto o discurso de um paralítico."
Este pedaço do conto nos dá a certeza de uma personagem derrotada pela vida: as palavras "pale" e "fatness" aparecem com frequência na descrição de Arnold, levando-nos a compará-lo com um urso que resolveu hibernar, também por questão de sobrevivência, porque é incapaz de encarar o mundo. A mãe, ciente de que errou em algum momento, toma o máximo cuidado com tudo o que lhe diz:
"his mother, approaching him, spoke to him in the tender, almost pleading tone of a woman who is conscious of some past negligence in her treatment of her child and who is now, pitiably too late, truing to remedy it."
"a mãe, aproximando-se dele, falou-lhe no tom suave, quase suplicante, de uma mulher que está consciente de alguma antiga negligência no tratamento que dispensou ao filho e que agora, infelizmente tarde demais, tenta remediar."
O pai não consegue ignorar a fraqueza do filho e o humilha a todo instante. Thomas Wolfe descreve com tal elegância a história desta família que não conseguimos ter pena de Arnold, que escolheu a derrota como sua forma de revolta.
Os trechos traduzidos por Marilene Felinto foram tirados do livro "O menino perdido e outros contos", editado em 1989 pela Iluminuras. Os originais eu copiei do livro "The complete short histories of Thomas Wolfe", editado pela Collier Books em 1989.
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17 de agosto de 2009
Sophie's choice

Nestes tempos em que todos tememos a gripe suína como o vírus que dizimará a raça humana, é triste recordar que o escritor William Styron (1925 - 2006) faleceu vitimado por uma pneumonia. Triste para mim, porque sempre sinto a morte de um artista de talento.
Poucos terão a coragem necessária para encarar as mais de seiscentas páginas de "A escolha de Sofia", do norteamericano Styron, publicadas em 1979. Para estas pessoas, há um filme razoável lançado em 1982, com Meryl Streep no papel principal. A película, é claro, não chega perto da beleza do romance, principalmente por causa da Meryl Streep. Considero-a uma boa atriz, mas imaginá-la no papel de Sofia é demais. Sofia é descrita no livro como possuidora de uma beleza selvagem e sublime, coisa difícil de se ver na Streep.
Se alguém for procurar por aí um resumo do livro, encontrará algo vagamente ilustrativo sobre um casal, um aspirante a escritor e o holocausto. Mas a história vai muito além disso. Alguns acharão algumas matérias mais profundas, que tentam explicar a escolha do título: também podem estar lendo informações incompletas.
Ao se aventurar pelo livro de Styron, o leitor deve ter em mente que se trata de um escritor norteamericano dos anos 50, o que quer dizer longas (embora não tediosas) descrições, diálogos precisos, embora igualmente compridos e uma narrativa que beira o jornalismo de Gay Talese. Nada disso é ruim, óbvio, é só uma maneira de escrever.
"A escolha de Sofia" narra a história do casal Nathan e Sofia, ele um jovem perturbado e ela uma polonesa católica, que amargou anos em campos de concentração e vai parar nos Estados Unidos numa tentativa de reconstruir sua vida. Para se juntar à história surge o sulista Stingo, alterego de Styron. Mas o fato é que naqueles anos eles não podem e de fato não transformam aquele relacionamento em um triângulo amoroso. Mas é explícita a incompreensão de Stingo quando se vê atraído por Nathan (embora nada se consuma a não ser em um sonho) e ainda mais explícita a descrição de uma cena de sexo entre Sofia e Stingo, quando afinal ela cede aos encantos do sulista, tem-se a impressão de que é muito mais por um sentimento materno e por uma dívida pelo amor que este nutre por ela.
Sofia é capturada por nazistas porque tenta contrabandear uns quilos de presunto, que levaria para a mãe moribunda. A polonesa vive um contundente sentimento de culpa, porque o pai era antissemita e porque a mãe morreu sem que recebesse a tão desejada carne. Além disso, quando Sofia é capturada está com os dois filhos, Jen e Eva. A escolha a fazer é a seguinte: um oficial nazista lhe explica que pelo fato de Sofia ser polonesa, ela tem de optar por um dos dois filhos, que seguirá para a câmara de gás. Mas a escolha não tem importância nenhuma do ponto de vista prático, pois seria apenas prolongar a existência. Todos que estavam ali tinham consciência que morreriam cedo ou tarde. Claro que isso não foi verdade, hoje sabemos que vários conseguiram escapar, mas pelo menos era o que todos aqueles judeus e poloneses tinham em mente. O fato é que se Sofia não escolhesse, ambos seriam levados imediatamente para a câmara.
Mas a escolha de Sofia é muito mais do que isso e é o que torna este um livro até certo ponto perturbador: percebemos que Sofia tem de viver com esse fardo de não poder ter tudo o que deseja jamais, então tem de escolher entre o amor por Nathan e a atração por Stingo. Tem de optar pela crença em um Nathan que pode ser curado de sua esquizofrenia e do uso abusivo de drogas ou pela lucidez de um mundo que não é esse conto de fadas. Parece-lhe que a Nova Iorque do final dos anos 40 é tão desumana quanto Auschwitz. Nesse meio tempo, não há como acreditar em Deus e Sofia sente que a única fuga que lhe é permitida vem por meio do sexo. E é por isso que Meryl Streep jamais poderia fazer algo que prestasse a esse respeito, porque ela pode até ser uma boa atriz, mas não dá para olhar para ela e sentir qualquer espécie de desejo nesta área.
Sofia sabe que não conseguirá descanso, porque está irremediavelmente marcada pelos traumas do campo de concentração, pela privação que passou durante anos e pelas doenças que quase a mataram. Há no livro esta sensação constante de erro: Sofia devia ter morrido, Nathan devia estar internado em um hospício e Styron devia se concentrar solitariamente na escrita do seu romance. Mas são esses equívocos de Deus (como descreve Styron) que preparam os homens para as tragédias.
O livro já foi acusado de auto-indulgente, mas olhar a obra sobre este prisma é diminuí-la. É claro que há muito de autobiográfico e o olhar que o autor lança sobre si mesmo é piedoso, o que não importa, já que é apenas um outro olhar e não o verdadeiro. A narrativa, os pontos de vista do narrador, as histórias selecionadas, a indulgência, tudo isso também é escolha. O romance não pode ser lido com olhos de hoje, quando tudo que podia ser escrito sobre os campos de concentração já foi escrito, na ficção e fora dela, sob pena de rotulá-lo de livro comercial, quando na verdade ele representa o ressurgimento da ficção estadunidense, ao mesmo tempo que sugere um novo tipo de narrativa, misturando elementos dos romances comerciais com um estilo quase nunca poético, mas pungente e preciso.
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8 de agosto de 2009
Hócus-Pócus

As capas dos livros que comento aqui podem, às vezes, parecer estranhas. De fato talvez o sejam mesmo. Há uma explicação: eu mesmo as escaneio e embora o faça com muito carinho, não tenho muita paciência para retoques. O máximo que faço é diminuir o tamanho do arquivo para que não fique muito pesado na página.
Dito isto, vamos a Kurt Vonnegut: nasceu em 1922 em Indianápolis, nos Estados Unidos e morreu em 2007, em Nova Iorque, cidade onde morava desde 1970. Foi formado em Química e Antropologia e serviu na infantaria durante a Segunda Guerra Mundial. Provavelmente sua obra mais conhecida aqui no Brasil seja Matadouro 5 (Slaughterhouse-Five) e acho que por causa deste seu romance, ele é taxado de escritor de ficção-científica. O fato é que este "Hócus Pócus" é um livro e tanto e não tem nada de ficção-científica. Digo até com um certo preconceito, porque os livros de ficção se preocupam mais com a história e mais ainda com as ideias mirabolantes que devem fazer sentido e ter um embasamento teórico do que com a linguagem. Ray Bradbury tentou mudar isso trazendo lirismo para o estilo, mas ele já estava estigmatizado.
Hócus pócus é uma expressão que significa algo como truque ou fraude. Como chegou até aí ninguém sabe, porque em termos linguísticos, Hócus pócus não significa nada. Tem um jeitão de latim, mas é besteira: o próprio termo é uma fraude.
Kurt Vonnegut fala neste seu romance de um tema que sempre o perturbou: a guerra. E a guerra está presente o tempo todo, ora como realidade, quando o personagem principal do livro, o professor Eugene Debs Hartke, que é apresentado pelo autor logo no primeiro parágrafo do romance, resolve contar as pessoas que matou na Guerra do Vietnã, ora como uma inquietante sombra, que é o caso de um presídio gerenciado por japoneses que está sempre a um passo de uma rebelião.
A história: o professor Hartke se torna professor por um acaso - mandado para o exército pelo pai desejoso de um filho de sucesso, vai para West Point e depois para a guerra. Feito o que tinha de ser feito, o soldado retorna para os Estados Unidos sem saber o que será de seu futuro, até que um acaso o faz trombar com seu antigo oficial comandante, que então era diretor de um colégio e precisava de um professor de física.
Um rio separa o Colégio Tarkington e um presídio de segurança máxima com fins lucrativos gerenciado por japoneses. Era uma época em que os americanos começaram a preferir produtos vindos da terra do sol nascente. O Colégio Tarkington é uma dessas escolas para crianças ricas com problemas de aprendizagem.
Mulherengo, Eugene começa a sair com a esposa do diretor. Isso não poderia resultar em boa coisa. Colocam uma menina com um gravador escondido para seguir o professor por toda a escola. Uma maneira eficiente de conseguirem provas para dar um jeito no professor Hartke. Sem emprego e um pouco desesperado, consegue ficar amigo do diretor do presídio e começa a lecionar lá. Como ele é meio maluco, os prisioneiros se identificam com ele e adotam-no como um mentor, o que complica a sua vida, já que quando acontece o motim, ele é acusado de ser o guia dos presos. Com tuberculose e na cadeia, Eugene espera sobreviver neste estranho país que o recebeu de volta.
A qualidade da literatura de Vonnegut está justamente nesta crítica ao jeito americano de ser e na linguagem crua, extremamente crua e ácida.
Para encerrar, eu acho essa capa da Rocco perfeita, a metáfora de uma sociedade que já não funciona de forma correta há muito tempo.
Trecho de Hócus Pócus
Acho que William Shakespeare foi o homem mais sábio que existiu. Mas, para ser franco, isso não é grande coisa. Somos animais de uma vaidade impossível, e na verdade burros de doer. Pergunte a qualquer professor. Nem precisa perguntar a um professor. Pergunte a qualquer um. Cães e gatos são mais espertos do que nós.
Se eu digo que os Curadores do Colégio Tarkington eram Burros, e que as pessoas que nos meteram na Guerra do Vietnã eram burras, espero que fique claro ser eu mesmo o maior Burro de todos. Olhe aonde vim parar agora, e como dei duro só para chegar aqui, e não a outro lugar. Bingo!
E se acho que meu pai era uma besta quadrada e minha mãe era uma besta quadrada, o que posso eu ser se não outra besta quadrada? Pergunte aos meus filhos, legítimos ou não. Eles sabem.
(Tradução de Rubens Figueiredo para a Rocco, edição de 1993).
O trecho em inglês:
I think William Shakespeare was the wisest human being I ever heard of. To be perfectly frank, though, tht's not saying much. We are impossibly conceited animals, and actually dumb as heck. Ask any teacher. You don't even have to ask a teacher. Ask anybody. Dogs and cats are smarter than we are.
If I say that the Trustees of Tarkington College were dummies, and that the people who got us involved in the Vietnam War were dummies, I hope it is understood that I consider myself the biggest dummy of all. Look at where I am now, and how hard I worked to get here and nowhere else. Bingo!
And if I feel that my father was a horse's fundament and my mother was a horse's fundament, what can I be but another horse's fundament? Ask my kids, both legitimate and illegitimate. They know.
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whisner
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