Há um livro precioso de Mario Arregui chamado "Cavalos do amanhecer", que pode ser facilmente encontrado nas livrarias ou nos sebos. A nota bibliográfica da edição que eu tenho não dá dicas sobre qual livro do escritor uruguaio foi traduzido. Suponho que tenha sido seu primeiro, "Noche de San Juan y otros cuentos", de 1956. Arregui está tão esquecido que não consigo encontrar seus livros nem em espanhol em livraria nenhuma, inclusive do Uruguai. Aceito sugestões.
Os oito contos da obra são magníficos, são uma aula de literatura. É o tipo de leitura da qual nunca saímos sem pensar que o melhor é não escrevermos nada nunca mais. No conto de abertura, "Noite de São João", lemos a tradução de Sérgio Faraco:
Depois de muitos dias consumidos em tropeadas por campos e caminhos onde o outono semeava suas mil mortes, regressava Francisco Reyes ao povoado. Era um entardecer límpido e alto como a espada vitoriosa de um anjo, e cem fogueiras dispersas anunciavam o nascimento da noite de São João. Os cascos do cavalo golpeavam sonora e compassadamente a branca carreteira, e ele abria com avidez os olhos para os cordiais fogos dos homens e o balbuciar das primeiras estrelas. Seu peito também se abria, docemente se abria e se dilatava para antigas ternuras, recordações ainda palpitantes que o alcançavam desde o sítio onde se esconde a infância. Seu coração disparava como o de um menino.
É muito mais do que um relato sobre gaúchos, é um relato universal, no melhor sentido da palavra, a despeito do debate entre Atiq Rahimi e Bernardo Carvalho na Flip. Francisco Reyes remói a sua solidão entre os lençóis de uma prostituta, conhecida antiga. Ao sair da casa dessas mulheres da vida, Reyes conhece Ofélia:
Longos minutos permaneceram assim, como dois náufragos arrojados pelo destino na concavidade de uma mesma onda.
Em seguida vem o conto "Os contrabandistas". O contexto em que se passa a história foi muito bem explicado pelo jornalista Gilberto Pereira. Pouco depois, o notável "Cavalos do amanhecer", que narra a fuga de Martiniano, que já enfrentara duas guerras e não queria lutar a terceira. Percebemos o nervosimos e a covardia do herói:
Interrompeu-o a entrada de Correntino, com latidos que eram um único latido (ele saíra do rancho, recorrera as cercanias e voltava sobrecarregado de alarmas). Martiniano calou-o com um grito rouco e um pontapé, o cão refugiou-se debaixo do catre do garoto. Este despertou-se e ergueu-se.
Martiniano decide se esconder no poço ao lado de sua casa e deixa a mulher o filho se entenderem com os ginetes que se aproximam.
O próximo conto, "Diego Alonso", é dos que mais gostei. Conta a história de um conflito silencioso, suspenso por um um terror tênue e assustadiço, que qualquer sussurro poderia derrubar. Diego Alonso e o barbeiro estão enamorados pela mesma mulher. Quando Diego aparece na barbearia, percebe-se que é hora do confronto.
"Lua de outubro" é a próxima narrativa. Fala de Pedro Arzábal e de sua aventura na casa dos Lopes, com a menina Leonor.
O livro inteiro é permeado por um lirismo assustador, que faz com que sua leitura seja essencial e urgente.
10 de Julho de 2009
Cavalos do amanhecer
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11:05 AM
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7 de Julho de 2009
FLIP de novo
Tem gente falando que o Tezza sumiu perto do Bellatin, tem gente comentando que o Bernardo Carvalho arrasou com o Atiq Rahimi, tem gente fofocando que o Chico disparou que o João Gilberto é maior do que Guimarães Rosa. Tudo bobagem.
O legal era ficar nas filas dos autógrafos. Ali conheci muita gente interessante e anotei várias dicas de livros. Nas filas eu já ficava sabendo dos comentários sobre todas as mesas.
Mas não vi ninguém lendo em nenhum lugar da cidade.
Este ano proibiram a venda de livros off-Flip. Mas muitos conseguiram vender assim mesmo. Eu tenho as provas: comprei alguns.
Um sujeito perguntou ao gerente da livraria exclusiva da Flip se podia colocar alguns marcadores de página pra darem aos clientes. Não, não podia. Algumas editoras, que patrocinavam alguma coisa, não permitiam.
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10:35 AM
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6 de Julho de 2009
Lobo

Caminhando por Paraty encontrei António Lobo Antunes, que foi muito simpático comigo. Eu o segui por dois quarteirões, na esperança de que fosse reconhecido, tietado e nada. À noite, porém, a coisa mudou, parecia uma estrela de cinema, um reboliço. Aí só assinou o livro para um número limitado de pessoas. Ao chegar na tenda dos autógrafos foi recebido por uma salva de palmas, quando olhou para aquela multidão e soltou um sorriso irônico. Finalmente acendeu o cigarro que agitou durante toda a uma hora e pouco na tenda dos autores.
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4:01 AM
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29 de Junho de 2009
Vídeos
Muito legais esses vídeos feitos pelo jornalista Michel Lacombe, durante a nona Feira do Livro de Ribeirão Preto.
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3:41 PM
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26 de Junho de 2009
Camus e Albatroz
Aprendi a língua francesa porque queria ler Albert Camus no original. Cheguei a traduzir "O estrangeiro", mas nunca pensei em publicar a tradução. Depois Baudelaire. "O albatroz" é um dos sonetos mais perfeitos que já se escandiram e não existe tradução, em nenhum idioma, que se aproxime dos versos escritos por Baudelaire. Uma grandiosa metáfora da solidão dos gênios. Os versos finais narram a aventura desta ave, que, por ter as asas desproporcionais em relação ao corpo, gigantes, possui um caminhar manco, feio. Por outro lado, quando voa, percebe-se a harmonia do conjunto e a profunda habilidade nos movimentos. Leiam o poema.
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6:42 AM
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25 de Junho de 2009
Blog do poeta
Recomendo a leitura do blog de Álvaro Alves de Faria.
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5:27 AM
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23 de Junho de 2009
Jerusalém
Gonçalo Tavares é um escritor português de 36 anos que vem causando frisson em seu país natal com o livro "Jerusalém", tendo conseguido arrancar elogios até do conterrâneo José Saramago. O livro é realmente bonito, a trama consegue ser surpreendente em alguns momentos, mas o que conseguiu me prender foi a estranheza que as personagens nos causam: uma esquizofrênica que engravida em uma casa de recuperação e tem um filho deficiente. Ontem vi uma palestra do italiano Giovanni Ricciardi e ele, comentando um romance do Antônio Torres, Um táxi para Viena d'Áustria, diz que a principal característica desta obra é o fato de possuir um protagonista que vagueia sem motivo e sem razão por uma cidade. O mesmo pode ser dito das personagens de Tavares: elas perderam a conexão com a realidade, com a vida e com a própria verdade. É mais do que apatia, é uma falta aparentemente orgânica, há uma causa biológica nas ações. Incomodaram-me os "a nível de" e também os "há 5 anos atrás". Não sei se a regra da língua portuguesa em Portugal permite isso. Vou ver com o Pasquale no Twitter.
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